terça-feira, 17 de maio de 2011

manhã chuvosa


manhã chuvosa
como em outra qualquer
ele liga seu carro
que desliza prudente
pelas ruas alagadas
planos para o dia
mais um dia,
mais uma rua,
uma esquina,
outra esquina,
última esquina...
ele é parado
obedece, desce
um estouro, o carro foge
ele cai
sente o chão molhado com o rosto
a respiração é rápida e difícil
a chuva aumenta
ele tenta se erguer
a água que escorre pelo seu corpo é vermelha
não sente dor, apenas frio
suas pernas não obedecem mais
novamente seu leito é o chão
ele ouve gritos e passos apressados
sente seu corpo ser erguido
alguém pergunta seu nome
ele responde
mãos seguram seu corpo
ele é colocado em um carro
a parada é brusca
mais mãos...
novos rostos então em sua volta
sente quando é colocado em um leito rígido
suas roupas são cortadas
abre novamente os olhos, cobertos por uma névoa branca
a luz incomoda
ela segura sua mão
com um sorriso treinado diz mecanicamente que ficará tudo bem
ele ouve siglas
PAF, TC, CTI
e uma pergunta:
qual é o plano?
ele tenta se levantar, não sabe mais onde está
o frio aumenta
o coração acelera
a respiração para
mais siglas
PCR, TOT, PVP, PAM
novamente a pergunta:
qual o plano?
a pressão cai
bolsas de sangue inundam suas veias
o tempo passa
sua pele agora tem um tom azulado
seu abdome cresce
baço, intestinos, pâncreas?
ela observa o monitor
não há mais tempo
seu leito agora desliza pelos corredores
ele não resiste
o coração para
ela sobe em seu peito
com as mãos firmes e ritmadas
tentam devolver a vida
drogas são injetadas em suas veias
ele reage
volta a bater
uma lâmina rasga seu ventre
pedaços e fragmentos soltam do seu corpo
abraços, beijos, planos
idas e vindas...
lágrimas e sorrisos
toda uma vida...
o monitor alarma novamente...
ela fecha seus olhos...
acabou!

(Michele Michel)