sábado, 17 de dezembro de 2011

NINGUÉM ME VÊ


Quando ninguém me vê
sou bem mais d’eu mesmo
fica menor a vergonha
fica menos o juízo
cresce de tamanho a liberdade
invado, sem cerimônia, meus limites.

Quando ninguém me vê
fica mais alto o rock n’roll
vira guitarra a vassoura
fica mais limpo o chão
o batuque nas panelas
faz mais saborosa a refeição.

Quando ninguém me vê
sou asqueroso
vai o dedo ao nariz
deposito o produto
onde ninguém vê
ainda bem que ninguém me vê.

Quando ninguém me vê
fico invisível qual átomo
indivisível parte do universo
ficam maiores tempo e espaço
viajo anos-luz pra dentro de mim
da casa viro comandante Kirk.

Quando ninguém me vê
vira agito o tédio
vira muvuca a solidão
viro multi-homem
faço tudo ao mesmo tempo
depois invento um nada pra fazer.

Ninguém me vê, ainda bem
não quero testemunhas
do horrendo crime
de tentar transformar
todo o desatino em felicidade
quando ninguém me vê.

(Ricardo Mann)

sábado, 10 de setembro de 2011

A teus pés


Há em teus pés peculiaridades tantas.
Quisera eu, despojado, desnudar a todas.
Pequenas intimidades que estão permitidas.
São por mim plenamente ensejadas.

São vestidos a contento para cada ocasião.
Calçados tão somente ornamentam a perfeição
Tua dona os exibe à sua própria satisfação.
Representam o Céu para quem está ao chão.

Por sobre o desejo de quem os venera caminhas.
Pés deslizam solenes enquanto distraída passeias.
Conduzem a estatura voluptuosa de tuas pernas.
Submetem ao fascínio tantas vidas alheias.

De tantas facetas essa mulher se compõe.
Surpreendentemente ávida em tanta mansidão.
São inumeráveis mulheres em conversão.
Resultando apenas uma em permanente erupção.

(Ricardo Mann)


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

MULHER CIUMENTA


Sabes que sou mulher ciumenta
mas por hoje deixo-te nos braços dela

sei que neste exato momento
ela te aquece e recebe todas as tuas juras de amor

sei que você se enrosca por inteiro
com aquele lindo sorriso nos lábios

deixo claro também
meu óbvio mau humor

porque eu adoraria desfrutar neste momento
o aconchego da nossa cama!

(Michele Michel)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Se esparramando na paisagem





Sem comedimento
ela se esparrama
se insere totalmente
no que é compreendido pelo olhar

Não tem dúvidas
que pode interferir
e lançar mão e braços
na paisagem que lhe pertence

Ela derrama seu sorriso
entorna seus cabelos
extrapola o enquadramento
da amplitude fotográfica

Ela quer fazer parte
da cidade, do mar
do céu, do verde
e da vida de seu habitante.

(Ricardo Mann)



segunda-feira, 27 de junho de 2011

Enganamos o tempo


Enganamos o tempo,
logrando tempo,
na ausência do tempo.
Retardamos seu passar,
espremendo e sorvendo
cada segundo que estamos juntos.

Ele se dissolve e dilui
em nossos pensamentos.
Não é mais uma medida
de períodos passados.
É transpassado irresistente,
feito um detalhe...

Porém o tempo, vingativo,
nos pune cruelmente,
tornando os dias
insuportavelmente longos.
Suas frações se multiplicam
nos tornando escravos do relógio.

Sofremos pela metade ausente
nesse espaço entre encontros.
O som da voz amada ameniza
a dor do tempo apartado.
Voz que alimenta nosso dia,
almejando sua presença.

Temos a certeza de que
o tempo não importa,
por um simples motivo...
O que sentimos não pode ser aprazado.
Somos o que nos permitimos ser...
Eternamente apaixonados!

(Michele Michel e Ricardo Mann)

terça-feira, 17 de maio de 2011

manhã chuvosa


manhã chuvosa
como em outra qualquer
ele liga seu carro
que desliza prudente
pelas ruas alagadas
planos para o dia
mais um dia,
mais uma rua,
uma esquina,
outra esquina,
última esquina...
ele é parado
obedece, desce
um estouro, o carro foge
ele cai
sente o chão molhado com o rosto
a respiração é rápida e difícil
a chuva aumenta
ele tenta se erguer
a água que escorre pelo seu corpo é vermelha
não sente dor, apenas frio
suas pernas não obedecem mais
novamente seu leito é o chão
ele ouve gritos e passos apressados
sente seu corpo ser erguido
alguém pergunta seu nome
ele responde
mãos seguram seu corpo
ele é colocado em um carro
a parada é brusca
mais mãos...
novos rostos então em sua volta
sente quando é colocado em um leito rígido
suas roupas são cortadas
abre novamente os olhos, cobertos por uma névoa branca
a luz incomoda
ela segura sua mão
com um sorriso treinado diz mecanicamente que ficará tudo bem
ele ouve siglas
PAF, TC, CTI
e uma pergunta:
qual é o plano?
ele tenta se levantar, não sabe mais onde está
o frio aumenta
o coração acelera
a respiração para
mais siglas
PCR, TOT, PVP, PAM
novamente a pergunta:
qual o plano?
a pressão cai
bolsas de sangue inundam suas veias
o tempo passa
sua pele agora tem um tom azulado
seu abdome cresce
baço, intestinos, pâncreas?
ela observa o monitor
não há mais tempo
seu leito agora desliza pelos corredores
ele não resiste
o coração para
ela sobe em seu peito
com as mãos firmes e ritmadas
tentam devolver a vida
drogas são injetadas em suas veias
ele reage
volta a bater
uma lâmina rasga seu ventre
pedaços e fragmentos soltam do seu corpo
abraços, beijos, planos
idas e vindas...
lágrimas e sorrisos
toda uma vida...
o monitor alarma novamente...
ela fecha seus olhos...
acabou!

(Michele Michel)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Passeando teu sono


Quase de imediato
Você fecha teus olhos
Boca entreaberta
Mão no queixo

É minha hora de,
Totalmente desperto,
Observar teu rosto
Acompanhar a respiração

Sem me mover
Vou passeando teu sono
Me acostumando à presença
Da felicidade ao meu lado.

(Ricardo Mann)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Colcha de Retalhos


Bordados à mão
Reúno meus retalhos
Com cores fortes e vibrantes,
Tons alegres, contagiantes
Contrastam com outros tons,
Quase ausentes de cor
Por vezes impossíveis de bordar
Exigindo da agulha e linha
Pontos profundos
Que sangram os dedos
Feridas que se curam
Por linhas multicores
Que deslizam pelo tecido
Quase sem esforço
Alinhavo os retalhos
Costuro e descosturo
Mesclado todas as cores
Não arremato a colcha,
Vou bordando novos retalhos...

(Michele Michel)

terça-feira, 8 de março de 2011

A Mãe e o menino


alegro meus olhos e inspiro meu coração
com a imagem da Mãe e seu menino
que não vem da bíblica concepção imaculada.

ela é palpável, carnal e pertence ao plano humano.
traduz em cores e texturas toda a virtude
representada pelo que é ser Mulher.

contemplo Seus traços e Seu sorriso
sabendo que Ela é assim, espontaneamente
porque assim o deseja.

é quem me dá a força em prosseguir vivendo
Ela foi minha origem e será meu futuro...

o ser Mulher se completa com o nascimento.
esse momento que todos nós passamos
é que é consumado através Dela.

longe de mim qualquer alegoria divina
com uma promessa de salvação que não preciso.
amo o mundano, pois é real.

idolatro esta Mãe com seu menino
em carne, osso, sentimento
emoção, medo e fraqueza.

Ela olha por todos nós
motivada pelo simples ensejo de cuidar...

(Ricardo Mann)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

ELA EXISTE


Sei que existe uma mulher
Única em instintos e sentimentos
Que arrisca sem medo
A trilhar seu mundo
Intenso e feminino

Mulher de rosto delicado
Talhado em camafeu
Sensível ao toque
Que desliza prudente
Das costas até a nuca

Nenhuma cartilha a descreve
É mãe, irmã e filha
Tem um olhar malicioso
Uma boca saborosa
E um coração de menina

Sorriso largo e fácil
Tem certeza de que sabe
Amar naturalmente
Sem perceber
Como se respira

Muitas cenas serão projetadas
Ao redor dessa mulher
Trazendo lágrimas e esperança
Tornando-a melhor
Ao avançar do tempo

Mesmo que o filme acabe
Ela altera o final
E prossegue o roteiro
Permeado pelo simples
Arbítrio de ser feliz

Quero descobrir a trilha
De pétalas de rosa
Que conduz até essa mulher
Desembrulhar qual presente
E conceder-lhe toda a vida que me resta.

(Ricardo Mann)



Ingratas palavras...
Sempre me faltam no momento em que mais preciso delas,
queria neste exato momento traduzir um sorriso,
mas não um sorriso qualquer...
Quero traduzir "aquele" sorriso que nasce
com os lábios entreabertos e úmidos
e que unidos pelo ligeiro rubor da face
traduz a emoção exata do que senti
quando li seu depoimento...
como as palavras me faltam
deixarei para você um beijo,
na esperança de um dia
poder reproduzi-lo não por palavras!

(Ela)



Desenho por Celso Ramos

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Rapidinhas...


VERBOS CONJUGAIS

conjugar-se a alguém
se apaixonar
conjugar-se fielmente
se entranhar
conjugar-se finalmente
se preparar
para tornar-se cônjuge
do verbo amar.


A LUA É SUA

A lua é sua
já que ela
se insinua
em minha janela

Tomo dela posse
sem pagar preço
e como se minha fosse
a ti ofereço.


CHORE, MENINA

Chore, menina
ponha para fora
toda lágrima
depois não esqueça
de repor os líquidos
sorvendo o hidratante
sumo da alegria.


GÊNEROS

Mulher
Gênero feminino
Ponto de partida
Genetratriz do homem
Portadora do amor
Gênese da vida
Põe a alma à mesa
Generosa com largueza
Poder e delicadeza
Gene já grafado
Por longos anos
Genuína expressão
Polariza em si
Gêneros opostos
Possui o coração do
Gênero masculino
Homem


CARAMELO

Minha criança
quer caramelo
caramelo cor
caramelo doce
caramelo beijo
na cara
no queixo
tudo melado
tudo lambuzado
papel colado
boca que é um besuntão só
um sorriso
cheio de doce
entre os dentes
e uns olhos
de tom caramelo
lhe dizendo:
menino guloso
vem cá
se fores bom
terás mais doce
no formato coração.


FOLHA DE HORTELÃ

Fechaste meus olhos
puseste em minha língua
uma folha de hortelã

-Que gosto tem?...
Um dedo silencia meus lábios

- Aguarda...
Meus segredos levam tempo

O coração apressa o pulso
ansioso em ganhar-te
mas a espera é sábia

Ao descerrar o olhar
contemplo minha prometida
e seus desejos de mulher.


PELADO

Neste momento
estou pelado
minhas roupas
é que andam
e me conduzem
enquanto flutuo
entorpecido
dentro delas.


ESPANTO

de
repente
fiquei
sem
...